terça-feira, 1 de abril de 2025

São Cristóvão pela Europa (304).

 

 

 

Prossegui o périplo dinamarquês na ilha da Zelândia, a maior da Dinamarca se não considerarmos a agora tão falada Gronelândia.

Primeiro, estive no Mosteiro de Sorø.

O mosteiro foi instituído em 1140, tendo passado à importante Ordem de Cister em 1162.

Muito foi destruído desde então. Mas muito resta para ser visto, nomeadamente a Igreja construída em tijolo e no modelo seguido pela Ordem em toda a Europa.

No interior, para além de um magnífico fresco representando São Cristóvão, encontram-se vários túmulos reais. Entre eles o de Valdemar IV, bisneto da Infanta de Portugal D. Berengária, filha do nosso rei D. Sancho I, que foi rainha da Dinamarca ao casar-se em 1213 com o rei Valdemar II.

 




No Norte da ilha da Zelândia, visitei a igreja de Egebjerg, existente pelo menos desde 1295. É uma das mais antigas igrejas da Dinamarca construída em pedra.

Tem um único fresco que mostra um São Cristóvão lutando com as águas revoltas de um rio onde um peixe salta.  O Menino Jesus senta-se na sua mão direita enquanto, com a mão esquerda, o Santo se apoia no cajado que já floresce abundantemente.

A imagem, de três metros de altura, data da segunda metade do Século XIV e caracteriza-se por o Santo ter um aspecto franzino quase de Madonna, o que é invulgar.

 



A igreja de Egebjerg situa-se junto ao litoral e constituía ponto de referência dos navegadores. Por isso talvez a presença do nosso Santo.

Muito próximo, a praia de Lommestenen com uma beleza invernal muito própria destas costas do Mar do Norte:




 

                                        Fotografias de 4 e 5 de Fevereiro de 2025

                                                                        José Liberato



Usbequistão, encruzilhada de civilizações (21).

 

 

 

Se as imagens diurnas da cidade de Khiva, antigo oásis, são lindíssimas, as noturnas não ficam atrás.

Não precisam aliás de palavras.

 



 




 

                                Fotografias de 2 e 3 de Outubro de 2024

                                                             José Liberato





sábado, 29 de março de 2025

São Cristóvão pela Europa (303).

 

 

 

No início de Fevereiro, tive a oportunidade de ir à Dinamarca e não deixei de aproveitar para procurar imagens de São Cristóvão no país.

A Dinamarca é constituída por um grande número de ilhas, cerca de 1400. A ilha mais a Sudeste é a de Møn.

Nela se situa a Igreja de Fanefjord dedicada a São Nicolau. A sua construção iniciou-se cerca de 1250. Como em muitas igrejas dinamarquesas, os frescos são excepcionais. Os mais antigos são da segunda metade do Século XIV e um deles representa São Cristóvão. Os restantes são datados de cerca de 1500.

Foram todos tapados com cal em 1536 por altura da adesão à Reforma, tendo apenas sido redescobertos em 1929.

Um dos mais interessantes é o da dupla intercessão. À direita, a Virgem Maria, acompanhada por um grupo de mulheres, implora a um Jesus Cristo agonizante. À esquerda, Jesus Cristo ajoelhado intercede junto de Deus, sentado no Seu trono.

 






Sanderum situa-se no centro da ilha de Fiónia, por sua vez no centro da Dinamarca.

A sua Igreja de São Miguel foi construída em 1150, tendo sido acrescentada com uma torre por volta de 1400.

Os frescos da igreja são magníficos. Um deles representa São Cristóvão.

Outro apresenta a imagem de Cristo numa mandorla, uma aréola oval em forma de amêndoa. A Virgem, à Sua direita aponta para um peito de forma a mostrar que é Sua Mãe. O Seu amigo São João Baptista encontra-se à sua esquerda. Uma espada perfura a Sua cabeça, mas do outro lado surge transformada em ramos e flores.

Noutro ainda, podemos ver Santa Ana dando um fruto ao Menino Jesus na presença da Virgem Maria.

Imagens muito explícitas mostram o diabo em atitudes escabrosas.

 






                                    Fotografias de 1 e 4 de Fevereiro de 2025

                                                                                José Liberato






segunda-feira, 24 de março de 2025

Usbequistão, encruzilhada de civilizações (20).

 

 

 

Para ir da cidade de Boukhara para a cidade de Khiva, há que atravessar o deserto de Kyzil Kum. É um dos maiores desertos do Mundo, estendendo-se por cerca de 300 000 quilómetros quadrados, uma área correspondente a três vezes a área de Portugal.

Apercebemo-nos como, no tempo da Rota da Seda, estas cidades eram oásis num longo e penoso caminho entre a China e o Mediterrâneo.

 





 

Khiva é considerada a mais intacta e remota cidade da Rota da Seda. Aqui os viajantes encontravam poços de água doce que saciavam a sede de quem fazia milhares de quilómetros em condições extremas. Mas era também cidade de ladrões e escravos. No Século XIX uma expedição militar, tentou sem sucesso libertar 3 000 escravos russos.

O Khan de Khiva foi destituído em 1919 para dar lugar a uma efémera República Soviética do Khorezu. Só em 1924 foi integrada no Usbequistão.

A cidade é de uma beleza extraordinária. As suas ruelas e os seus monumentos dão-lhe um encanto muito especial.

 








                                            Fotografias de 2 e de 3 de Outubro de 2024

                                                                                            José Liberato




sábado, 22 de março de 2025

Carta de Bruxelas.





                                                                A terra sobre os olhos



O historiador da arte Bernard Berenson nasceu Bernhard Valvrojenski, em Butrimonys, na Lituânia, numa família judia; tendo-se convertido ao cristianismo, foi episcopaliano quando a família emigrou Boston em 1875, e, em seguida, católico, quando já vivia em Itália, para onde se mudou depois de ter viajado na Europa em 1887, após a licenciatura. Berenson nunca deixou de se confrontar com a questão judaica; numa entrada do diário, de 2 de Setembro de 1953, deixou uma observação esperançosa. Via no poder nacional e no valor militar nele fundado uma carta de alforria, o caminho para a igualdade.

«Não serem objecto de desprezo» é do que os judeus precisam. Certamente, nenhum outro «povo» – quero dizer um grupo cuja coesão foi mantida por hábitos, usos, costumes, tradições, rituais – nenhum outro povo que chegou até aos nossos dias com uma história ininterrupta de uns bons três mil anos serviu tão bem a humanidade. Aos cristãos e aos maometanos deu-lhes a sua religião, nunca deixou de contribuir para o pensamento e a literatura, e, nos últimos 150 anos, nenhum outro povo esteve presente de modo tão criativo e tão fecundo em todos os aspectos da actividade humana, até na militar quando lhes foi permitido.  Que a maior parte dos não judeus sinta desprezo por eles, porém, não só os torna ressentidamente infelizes e servilmente ansiosos por serem bons burgueses, acatando as regras da média em todos os países, mas leva-os também a desprezarem-se a si mesmos até ao ponto de se suicidarem, como foi o caso de Weininger. A solução pode estar num Estado plus – um plus muito grande – a glória militar, o único valor que todos nós reconhecemos como supremo. Se os judeus criassem um Estado militar poderoso, desapareceria o desprezo de que são alvo.»

É uma concepção de uma época, de duas épocas atrás. Dos tempos em que os judeus ficavam à porta da sociedade, partilhando com outros grupos marginais e marginalizados a mesma condição de inferioridade. Apesar da emancipação civil e política, o ferrete das origens não desaprecia. Berenson vê no poder, entendendo que é antes de mais o poder de responder taco a taco, de armas na mão, armas iguais às dos agressores, a possibilidade de os judeus se constituírem como um povo em pé de igualdade com os outros povos. A derrota do nacional-socialismo seria o fim da discriminação; a fundação do Estado de Israel, soberano entre soberanos, a ratificação última da igualdade. E, no entanto, o nazismo não foi o derradeiro capítulo de uma história contínua, milenar de perseguição. Foi algo de novo. E essa novidade permaneceu. Na concepção nacional-socialista, a dualidade ariano-judeu constitui uma oposição insanável, que está para lá de todo e qualquer conflito político, são dois tipos absolutos e de igual poder. Para que um viva, o outro tem de morrer. Assim, o judeu foi guindado a uma posição insigne, negativamente insigne. Se no pós-guerra, um pós-guerra que começa uma década depois do fim das hostilidades (recorde-se as dificuldades de Isaac Schneersohn  para erigir um memorial do genocídio; inaugurado apenas em 1956, foi até ao início da década de 60 o único do mundo num espaço público), o judeu não é exactamente igual, isso deve-se ainda a ter sido alvo de todo o género de exacções e violências. O apoio da União Soviética a vários países do Médio Oriente assinalou o início do divórcio da opinião pública, por via esquerdina, é certo, mas não só por aí, relativamente a Israel. Paradoxalmente, foi ao mesmo tempo o início da entronização do estatuto que o nazismo atribuíra aos judeus. Os inimigos figadais de ontem geraram ambos o mesmo fruto e, nesta coincidentia oppositorum diabólica, os judeus tornaram-se a encarnação do mal absoluto e universal no mundo. O poder, em que tantos depositaram as esperanças da igualdade, revelou-se, numa desfiguração retroactiva, o elemento que apunha o selo definitivo no novo estado de coisas. Em grande medida, o 7 de Outubro de 2023 consumou o que veio à luz com o nacional-socialismo – foi a sua vitória. Por mais que custe dizê-lo. As meias tintas que vigoraram depois de 45 (mas também a Shoah, entendida quase sempre à luz da continuidade história) ficaram para trás, caracterizam uma época – hoje vista como indecisa pelo novo sentido que um novo acontecimento lhe impôs – que acabou por não ser um crédito adiantado, antes foi o início de uma dívida cuja cobrança coube por fim ao 7 de Outubro de 2023 e às suas repercussões. Pelo poder, a igualdade almejada retirou-se do mundo, e deixou cadáveres como a maré vazia deixa destroços numa praia. Cadáveres absolutos e universais de uma nova época.

 

                                                    João Tiago Proença


quinta-feira, 20 de março de 2025

São Cristóvão pela Europa (302).

 

 

 

É tempo de voltar ao nosso querido rectângulo. Visitei em Janeiro três freguesias todas no Norte de Portugal e tendo como orago São Cristóvão.

Comecei pela freguesia de Candemil na parte Sudeste do concelho de Amarante, junto ao concelho de Baião. A paróquia já é mencionada no Século VI, sendo chamada de Sancto Christophori de Candemir a partir de 1152, ou seja, antes da Lenda Dourada de Voragine que estabelece a história de São Cristóvão!

A igreja sofreu imensas alterações, as últimas das quais no Século XIX, sendo que todas as imagens foram roubadas no início do século seguinte.

No interior, uma imagem no altar-mor e outra na sacristia.

 

 





 

Totalmente remodelada no Século XVIII, a igreja Paroquial de Mondim de Basto, é hoje uma típica igreja de estilo barroco. De gótico, apenas a porta lateral. O tecto ostenta, no caixotão central, a imagem de São Cristóvão.

 




Finalmente, e também em Trás-os-Montes, a Igreja Paroquial de Parada de Cunhos no concelho de Vila Real é também barroca. Tem imagens de São Cristóvão num nicho da fachada, no tecto como na igreja de Mondim de Basto e no altar-mor.

 





                                Fotografias de 17 de Janeiro de 2015

                                                                      José Liberato




terça-feira, 11 de março de 2025

Usbequistão: encruzilhada de civilizações (19).

 

 

 

Nos arredores de Boukhara, o palácio Sitorai Mokhi Khosa, o que é traduzido de forma algo contraditória por Palácio das Estrelas como a Lua, era a Residência de Verão do Emir de Boukhara. O Palácio que se vê hoje foi construído no início do Século XX pelo último emir que, como já vimos, foi destituído em 1920. Não teve, pois, muito tempo para o gozar…

A decoração é de gosto predominantemente europeu.

 








Já na saída de Boukhara na direcção do deserto, a Necrópole Chor Bakr, construída no Século XVI, destinava-se a dar sepultura a muitos dos líderes religiosos, em especial a Abu Bakr-Said que viveu no Século X.

 




 

                             Fotografias de 1 e 2 de Outubro de 2025

                                                                         José Liberato